MATÉRIA JORNALÍSTICA

Eu mandei grampear o Geddel'

Segundo reportagem da 'IstoÉ', senador admite ter grampeado quase 200 horas de conversas

Matéria do Jornal O ESTADÃO – 23/02/2003  www.estadao.com.br

 EDSON LUIZ

Enviado especial

 SALVADOR - Investigadores que trabalham na apuração da escuta clandestina feita pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia acreditam que as investigações vão mudar de rumo, diante da publicação, pela revista IstoÉ que chega hoje às bancas, de uma conversa na qual o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) afirma ter mandado grampear o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), seu inimigo político na Bahia. "Eu mandei grampear o Geddel. Gravei quase 200 horas de conversas vergonhosas dele, inclusive com o presidente da República", afirmou ACM, segundo a reportagem, assinada por Luiz Cláudio Cunha. Antes dessa entrevista os policiais e procuradores envolvidos nas investigações tinham poucos indícios sobre a participação do senador no episódio.

 "Acho que agora temos o indício mais forte. A prova de quem foi o mandante", afirmou um dos investigadores. Na conversa com o repórter, ACM teria revelado que "uns amigos" gravavam as conversas. "Gravaram tudo, a meu pedido", disse ele. As conversas estavam resumidas em relatórios guardados no gabinete do senador baiano - mas, sempre de acordo com a revista, ACM não dispunha mais das gravações, que teriam sido destruídas por quem realizou a escuta.

 As conversas de Geddel começaram a ser gravadas a partir de maio de 2002.

 Mas dois meses antes, em março, a polícia já vinha fazendo monitoramentos clandestinos, autorizados a partir de um inquérito que apurava o seqüestro de duas crianças em Itapetinga, no interior da Bahia. Nos pedidos de escuta feitos à juíza de Itapetinga, Tereza Cristina Navarro Ribeiro, a Secretaria de Segurança do Estado incluía telefones de pessoas que nada tinham que ver com o crime.

 Além de Geddel foram grampeados o deputado Nelson Peregrino (BA), líder do PT na Câmara, o ex-deputado Benito Gama, o advogado Plácido Faria e seu mulher, Adriana Barreto, ex-namorada de ACM. Estes dois darão depoimento hoje, à Polícia Federal em Brasília.

 Na relação levantada pelo Tribunal de Justiça da Bahia, havia 466 pedidos de escuta, envolvendo 232 telefones de 162 pessoas. O principal acusado de comandar o esquema de escutas é o delegado Valdir Barbosa, que ocupava no ano passado uma assessoria especial da Secretaria de Segurança e, em 2003, tornou-se delegado-chefe. Na quinta-feira, Barbosa pediu afastamento do cargo.

 Indícios - Os indícios concretos de participação de ACM na operação eram, até agora, muito fracos. O principal deles era o de que o senador tinha conhecimento de todas as gravações: um integrante da equipe que apura o grampo revelou ao Estado que ele recebia relatórios freqüentes sobre as pessoas que estavam sendo rastreadas. Em uma das páginas do relatório que ACM teria mostrado ao jornalista da IstoÉ há anotações feitas por ele próprio.

 A revelação de ACM de que as fitas foram destruídas foi confirmada por investigadores, uma vez que a juíza de Itapetinga nunca recebeu o conteúdo das gravações - uma determinação da Lei 9.296/96, que legalizou a escuta telefônica. Além dos problemas que lhe podem advir, no Congresso, Antonio Carlos Magalhães poderá também ter de responder a processo na esfera criminal, já que teria cometido um delito cuja pena é de 2 a 4 anos de reclusão.

 

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