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A saga por que passou a mídia americana há menos de
dois anos está se repetindo. Nunca foi tão difícil obter, validar ou
ser elogiado por uma entrevista cuja fonte é o "inimigo". Primeiro, o
terrorista Osama bin Laden; agora, o ditador Saddam Hussein.
A mídia americana fez chover notícias sobre a fita com entrevista
exclusiva de Hussein à Dan Rather, âncora da CBS News. Editada por
iraquianos antes de retornar à sede americana, a entrevista levantou
questões jornalísticas sérias abordadas em dezenas de artigos e já
levantadas anteriormente quando bin Laden se recusou a dar uma
entrevista em presença de jornalistas americanos. Não se sabe se os
iraquianos modificaram trechos de que não gostaram.
Para obter a entrevista, a primeira do ditador a uma emissora
americana em 13 anos, a CBS teve de concordar com condições das quais
muitos jornalistas desconfiariam. O Iraque, atesta Elizabeth Jensen [The
Los Angeles Times, 27/2/03], forneceu três câmeras em ângulos
diferentes, dois tradutores e material e equipe de filmagem. Ao final
do encontro, os iraquianos ficaram com as fitas para fazer a tradução
para o inglês e algumas cópias. Em vez de devolver à CBS três fitas
com três horas cada, os iraquianos deram apenas uma fita de três
horas, contendo partes das três fitas editadas juntas. Depois de
retornar à sucursal da CBS em Bagdá, a entrevista foi enviada via
satélite a Nova York, onde a emissora fez sua própria tradução.
Dan Rather afirmou no CBS Evening News que, aparentemente, "o conteúdo
de quase três horas de entrevista está intacto". Os iraquianos ficaram
com a guarda das fitas por quase 24 horas – 14 horas a mais que o
esperado pela CBS. Quando Peter Jennings entrevistou o ditador pela
ABC em 1990, o material ficou retido por apenas seis horas e retornou
intacto. Mas os tempos são outros. Os requintes de imagens e sons e as
técnicas de edição avançadas ocupam mais tempo hoje.
A Casa Branca não gostou
Quem não gostou nada da entrevista da CBS foi a Casa Branca, que disse
ter recebido uma proposta incabível para rebater os comentários do
presidente do Iraque. "É estranho eles não permitirem que tenhamos
voz", disse Ari Fleischer, porta-voz da Casa Branca. Fleischer disse
ter indicado um representante do governo, mas a CBS só se interessaria
se o próprio presidente Bush respondesse.
Sandy Genelius, porta-voz da CBS News, disse que, de início, a Casa
Branca ofereceu enviar Ari Fleischer para comentar a entrevista, mas a
emissora não quis. "Se o presidente, o vice-presidente ou o secretário
do Estado [Colin Powell] quiserem aparecer no programa, ficaremos
contentes em recebê-los", disse Sandy. Fleischer, de sua parte, negou
que a Casa Branca tenha indicado quaisquer nomes.
Funcionários do governo americano também não gostaram da maneira como
a entrevista foi conduzida, dizendo que as mesmas condições nunca
seriam aceitas se impostas por Bush. Uma reportagem de Randall
Mikkelsen [Reuters, 26/2/03] afirma que Fleischer não estava
preocupado com possíveis mudanças de opinião que a entrevista
provocaria. "O povo americano sabe lidar com uma entrevista de Saddam
Hussein, mas para haver justiça, nosso governo deveria ter uma voz."
O porta-voz da Casa Branca reconheceu o belo furo de reportagem da CBS,
pelo qual ele congratula a emissora. "Mas é importante reconhecer
também que, em nome do equilíbrio e da distinção moral entre uma
ditadura e uma democracia, o Iraque faz propaganda política e
continuará fazendo."
Alguns críticos de mídia levantaram a hipótese de que a CBS tenha
segurado a entrevista até o último momento para alavancar a audiência
no último dia de um período importante para atingir altos índices na
TV. A princípio, a CBS soltou apenas algumas manchetes da entrevista
que, a esta altura, poderia modificar o curso dos acontecimentos no
mundo.
O que incomodou o governo americano, no entanto, foi a ausência do
direito de rebater questões postuladas pelo ditador iraquiano. De
acordo com o repórter Oliver Burkeman [The Guardian, 27/2/03], a Casa
Branca queria "o mesmo tempo" de transmissão "na mesma entrevista".
Sandy rebateu que a questão de tempo equivalente às duas partes é "um
pouco curiosa". "O povo americano vê o presidente e seus
representantes virtualmente todos os dias. Nós noticiamos o
posicionamento da Casa Branca sobre assuntos mais importantes
virtualmente todos os dias."
De fato, a postura da Casa Branca é esquizofrênica. Em uma reportagem
publicada em outubro de 2001, o jornalão The New York Times discorria
sobre o equilíbrio entre liberdade de expressão, segurança nacional e
patriotismo no pós-11 de setembro, e como a primeira estava ameaçada
pelos dois últimos. À época, o governo americano fazia manobras
delicadas em prol de seus interesses: tentou suspender a transmissão
de uma entrevista feita com Osama bin Laden para a rádio Voz da
América; repreendeu publicamente um apresentador de TV que criticou as
Forças Armadas; e causou a demissão de repórteres de jornais do
interior por questionar algumas medidas do presidente Bush.
Não basta falar da Casa Branca. Há que se falar bem dela.
Troca de papéis
Quando a entrevista acabou oficialmente, as câmeras e as luzes foram
apagadas e então chegou a vez de Dan Rather ser "entrevistado" por
Saddam Hussein. O presidente do Iraque fez uma espécie de "quiz" com o
jornalista da CBS.
A entrevista em off, a primeira com um jornalista americano também em
13 anos, deveria durar 40 minutos, mas se estendeu por cerca de duas
horas, afirmou Howard Kurtz [The Washington Post, 26/2/03].
O líder iraquiano queria saber "sobre a opinião pública americana e o
presidente Bush", lembra Rather. "Eu disse que a opinião pública dos
americanos estava atrás de Bush. Acho que ele disse, ‘não tanto quanto
antes’". Rather respondeu que "os americanos gostam de debater e
discutir essas questões", mas ainda assim estão do lado de Bush.
Quando Hussein perguntou sobre algumas opiniões americanas da guerra,
Rather disse que é apenas um repórter, "não um político, um acadêmico,
um diplomata ou um soldado". "Mas você é também um cidadão", retrucou
o presidente iraquiano, "e um jornalista experiente."
Apesar da possibilidade de o Iraque enfrentar um ataque americano e
britânico dentro de poucas semanas, a atmosfera não estava tensa. O
começo da entrevista foi lento, devido às traduções necessárias para
perguntas e respostas. Mas após uns 10 minutos a dinâmica começou a
mudar. "Ele começou a se envolver", disse Rather. "De vez em quando
Hussein se inclinava para frente, ou batucava com os dedos sobre a
mesa ao descrever o destino dos últimos invasores do Oriente Médio."
Dan Rather é um âncora conhecido por criticar a falta de liberdade de
imprensa em tempos de guerra. Em maio do ano passado, o jornalista
concedeu uma entrevista à BBC de Londres, noticiada por este
Observatório. Nela, Rather afirmou que o patriotismo americano desde o
11 de setembro tem sido tão exacerbado que muitos jornalistas se
sentem mal ou mesmo impedidos de fazer perguntas sobre a guerra ao
terrorismo. "O que estamos praticando – reconheçam ou não, chamem pelo
nome apropriado ou não – é uma forma de autocensura."
Na entrevista concedida à BBC, Rather comparou o problema dos
repórteres americanos ao dos dissidentes sul-africanos durante o
apartheid. "É uma comparação obscena (...). Mas houve um tempo na
África do Sul em que as pessoas colocavam pneus em chamas no pescoço
dos que discordavam. De certa forma, o medo é de que você seja
‘encoleirado’ aqui", disse. "É esse medo que impede jornalistas de
fazer perguntas delicadas. E não me excluo dessa crítica."
A mesma ladainha
A decepção de Dan Rather não é à toa. Ao contrário do que prescreve a
boa conduta jornalística que a mídia americana crê representar, a
autocensura virou prática comum. No final de 2001, a Folha de S.Paulo
noticiou que "as redes de TV americanas ABC, CBS, NBC, Fox e CNN
fizeram cortes no último comunicado da al-Qaeda", conforme havia
solicitado o governo dos EUA. "Da mais recente mensagem, foi
transmitido um breve extrato de dez segundos ou uma imagem fixa de
Sulaiman Abu Ghaith, porta-voz da rede terrorista de Osama bin Laden,
com legendas que indicavam que se tratava de novas ameaças."
Em outubro de 2001, a CNN e a emissora árabe al-Jazira enviaram
perguntas a Osama bin Laden por meio de intermediários ditos membros
da organização terrorista al-Qaeda, da qual bin Laden faz parte. A CNN
enviou seis perguntas e a pequena al-Jazira encaminhou, na mesma
semana, 25 perguntas.
Aparentemente, apenas a emissora do Catar obteve resposta. A
entrevista exclusiva, no entanto, nunca foi ao ar. Inicialmente, a
emissora negou a existência da entrevista. Dois meses depois, disse
que não a divulgava porque nela não havia informação relevante, nem
qualidade técnica. A al-Jazira alegou também que o vídeo mostra o
quanto o repórter ficou intimidado por bin Laden, e que houve recusa
do líder terrorista em responder às perguntas, preferindo ditar
declarações. A emissora árabe declarou que, até o final de 2001,
recebera quatro ou cinco vídeos de bin Laden desde o 11 de setembro,
mas se recusou a dizer se se tratavam de entrevistas de seus
repórteres ou fitas entregues por representantes da al-Qaeda. Boa
parte das fitas nunca foi ao ar.
Nesta época, a Casa Branca pediu que as emissoras americanas e
catarianas editassem os vídeos que chegavam de supostos membros da
al-Qaeda para eliminar possíveis mensagens codificadas.
Ainda em outubro de 2001, o Observatório da Imprensa noticiou que o
programa Prime Time Tuesday, da ABC News, transmitiu uma longa
entrevista com Carmen bin Laden, cunhada distante do terrorista Osama
bin Laden. Inicialmente, Philippe Grumbach, advogado de Carmen,
ofereceu a entrevista a duas emissoras. Fez exigências e impôs
condições, inclusive o direito de assistir às imagens antes e fazer
modificações.
Apesar da aparente cordialidade para com a imprensa, não dá para
acreditar que haverá uma abertura como a proferida pelo Pentágono aos
órgãos de comunicação, em release oficial enviado em meados deste mês.
É preciso atentar para a realidade de que nem tudo o que aparecerá nas
telinhas e nas páginas dos jornais corresponde à realidade. Cortes,
censuras e restrições na imprensa já estão entrando para a história do
governo Bush.
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