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05.Mar.2003 | Os 513 deputados federais concederam-se um carnaval de
almirante. Com a pachorra da experiência, os 81 senadores apenas
contam os dias para sacramentar o que o combativo representante
gaúcho, o petista Paulo Paim, imbatível defensor de correções das
perdas históricas do salário mínimo, antecipa como a natural tendência
da Câmara Alta em seguir os bons exemplos da outra Casa do
Legislativo.
Não é mesmo caso para os riscos cardíacos da tensão da pressa, quando
a sagrada equidade carimba as sábias observações do paladino do
salário mínimo para os outros.
Na manhã radiosa da Quarta-feira de cinzas, sem olhar para o céu - com
as três ou quatro exceções de constrangimento passageiro - senadores,
senadoras, deputados e deputadas acordaram com a alma leve como quem
desperta de sonho que adivinha e realiza desejos escondidos no saco do
pudor. Miraram-se no espelho para a íntima, solitária emoção de
saborear a vitória coletiva e conferir a imagem que os olhos
iluminados pelo deslumbramento enxergam, filtrada pelas lágrimas da
alegria.
Lá com os botões do pijama e os laços das camisolas, cada qual curtiu
as congratulações pelo sucesso da operação impecável, que em três
etapas coordenadas, transformou, com toque da varinha de condão,
lamurientos representantes do povo, sempre queixosos dos modestos
salários da mixaria de pouco mais de R$ 8 mil, reduzidos com os
descontos aos contracheques de R$ 5 mil e alguns trocados, em
novos-ricos, com renda mensal, construída com a habilidade de castelo
de cartas, misturando salário, vantagens, benefícios, mordomias,
privilégios, na bolada milionária de R$ 76 mil.
Sim senhores, setenta e seis mil reais! E por baixo. Pois acima do
teto, com a arte de equilibristas, os presidentes da Câmara e do
Senado e outros felizardos, ainda merecem os dengos da mansão à beira
do lago, com casa e comida; carro, com motorista e gasolina à farta.
Os mateus parlamentares cuidaram deles e dos seus.
E têm lá os seus motivos para orgulhar-se. Nem nos clássicos filmes de
aventura da safra italiana dos enredos de trapalhadas dos totós da
vida, urdindo planos para sacar dinheiro de bancos sem exigência de
saldo, a poderosa imaginação de consagrados diretores logrou nada que
se compare à minuciosa perfeição da manobra parlamentar.
Para começar, tudo dentro da lei, na obediência matreira aos prazos e
rigores do zelo pelo dinheiro público. E com o adereço da malícia no
antecipar embaraços e contorná-los com as gingas passarinheiras que
enxotam os escrúpulos, mandando-os às favas. Vejam que primor de dar
inveja aos craques das últimas equipes econômicas, mestres no sumiço
do minguado dinheiro da Viúva. O lance inicial é um toque de Pelé, com
o reajuste de 53,6% do salário pelo teto dos ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF), na pirueta do aumento de R$ 8.280,00 para
decorosos R$ 12.720,00. E é a única parcela sujeita à declaração ao
imposto de renda, sobre o qual incide o cálculo bote do leão.
O mais, é por fora. Desce em cascata, inundando o açude em prodígios
de criatividade. A verba para o gabinete privativo, no palácio do
Congresso, saltou de R$ 25 mil para R$ 35 mil, com o glacê da
autorização para cada novo milionário contratar até 20 assessores de
confiança. Se todos os agraciados da parentela e cupincharia derem as
caras ao mesmo tempo, não cabem em pé nos gabinetes já equipados com
os servidores da Casa, que entraram pela porta do concurso.
Para a felicidade da família, que não abandonou o ninho e não põe o pé
em Brasília, a verba para o segundo gabinete, na base eleitoral,
pererecou de R$ 7 mil para R$ 12 mil. Uma ajuda que se abiscoita
mediante a simples prestação de contas, juntando os recibos. São
gabinetes no ar, pendurados no faz-de-conta.
Com mais o auxílio moradia de R$ 2.175,00 para as duas ou três diárias
semanais nos hotéis dos dias úteis e a baba de R$ 4.268,00 para selos,
fax, telefonemas, chegamos ao subtotal de R$ 66.163,00.
Para fechar a conta, a cota de passagens semanais, que varia com a
distância da base de suas excelências à Brasília das breves presenças
e mais outras gulodices para adoçar a dura vida dos representantes do
povo que os elegeu.
A farra da véspera do carnaval da ventura custou a tuta-e-meia de mais
R$ 160,4 milhões. E a Câmara poderá abrigar nos gabinetes dos
deputados até 10.260 assessores contratados sem concurso. A maioria
para fazer o que sabem: coisa nenhuma.
Senadores e deputados de R$ 76 mil de repasse mensal recebem o
equivalente a 316 salários mínimos de R$ 240,00 do anunciado limite do
reajuste do governo Lula.
Estão com a bola toda, com autoridade moral e o respaldo ético para o
apelo para os apertos de cinto dos barnabés com os 4% do reajuste
máximo do compromisso presidencial.
E para convencer os trabalhadores, com seu exemplo, a lamber os beiços
com os R$ 240,00 dos rojões de 1o de maio, na festança do Dia do
Trabalho.
Quanto aos senadores e deputados, esperamos que sigam a recomendação
judiciosa do deputado Roberto Jefferson, líder da bancada do PTB: “Com
este aumento, os parlamentares não precisam mais sujar as mãos com o
dinheiro dos traficantes”.
Edificante, não? Por que não se grava em bronze no salão nobre do
Congresso?
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