A corrupção, a sociedade e a imprensa: Onde está a razão?

Gleuton Brito Freire

Juiz de direito da 1ª Vara de Goiatuba (GO).

Eleita como a vilã do novo século, a corrupção ganha as páginas de jornais e revistas de grande circulação, bem como as telas dos aparelhos de televisão do povo brasileiro, atingindo altíssimos níveis de audiência, parecendo, infelizmente, modismo pleonasticamente passageiro. Será que a sociedade descobriu a corrupção somente neste milênio? Ou será que busca no debate à corrupção fugir à essência do verdadeiro sentimento que a enseja? Falta a armadura para enfrentar a Cruzada?

A corrupção, na definição gramatical de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, assenta-se no ato ou efeito de corromper; na decomposição; devassidão, depravação; suborno; peita. Esta, portanto, sua verdadeira tradução.

Trata-se, indiscutivelmente, da forma vil de agir, sobrepondo o interesse particular a obra pública.

Porém, mister se faz a reflexão da origem da corrupção. De onde ela provém? Como surge? Quais os mecanismos de proliferação? A corrupção surge do próprio sentimento do povo brasileiro. É vergonhoso o orgulho da gente tupiniquim pelo "jeitinho brasileiro", apregoando-o em vantagem às demais nações. Nada mais é o afamado e repugnante "jeitinho brasileiro" do que a aceitação da burla, da fraude, da enganação e, consequentemente, da corrupção.

Pregar, defender, orgulhar-se do abjeto jeitinho é a própria depreciação da nossa gente - o povo ameríndio aportuguesado que habita este lindo e tropical país.

Assim, não basta a sociedade criticar a corrupção no nível exclusivamente político, aceitando, praticando e valorizando este repugnante método de driblar a lei e a ordem jurídica, prejudicando o corpo social através do jeito brasileiro de resolver as coisas.

Ora, o verdadeiro combate à corrupção deve, substancialmente, começar no espírito de cada brasileiro, desvestindo-se do interesse de buscar vantagem em tudo, contra todos, pensando individualmente em si.

O homem só cresce em conjunto; jamais se isolando egoisticamente. Talvez seja esta a explicação inexplicável à tolerância do povo brasileiro à corrupção. A indignação, por mais que exista - e, felizmente, existe - ainda é branda, delicada, suave. Nenhum povo do mundo aceita, tolera, permite estaticamente a proliferação deste sentimento nocivo que arraiga a própria cultura nacional.

Aceitar em casa, receber com honras, dar tratamento especial aos homens do poder reconhecidamente corruptos, que subtraem à população o direito primário de viver com dignidade, fechando, de outro lado, as portas e as janelas das residências às crianças e adolescentes de rua, bem como aos renegados pela sorte, que vivem no abandono, furtando aqui e acolá, comprova, insofismavelmente, a repugnante, desprezível e nojenta tolerância da população à corrupção.

Combate-se o furto e o roubo praticado pelo ladrão desafortunado, simples, humilde, desprovido de inteligência e – alguns poucos, ressalte-se – elogia garbosamente a esperteza, a sorrateira inteligência dos grandes corruptos. É como se dissessem, implicitamente, o seguinte: vamos combater os furtos e roubos, entretanto, vamos aceitar a corrupção dos poderosos, porque não pegam em armas sujas nem violentam as nossas famílias.

A verdadeira violência é subtrair a dignidade das pessoas. É furtar o direito constitucional de cada um de gozar a cidadania. É participar do aumento da pobreza, da miséria, da péssima distribuição de renda, contribuindo, inclusive, para a desagregação familiar. É buscar tudo para si e relegar o resto, a migalha, a sobra ao conjunto social, como se o mundo existisse somente para servir-lhe, pouco se importando com os irmãos, com aqueles que nada têm para a mínima condição de sobrevivência.

É, na essência, roubar os sonhos de futuro venturoso dos desassistidos e desamparados, prejudicando-lhes a possibilidade já remota de vida digna e honesta.

Até quando o egoísmo será a tônica da vida das pessoas? Será preciso uma catástrofe para a modificação destes seres sencientes? A sociedade caminha para a decomposição. Atravessa, hodiernamente, o auge da sua depuração. Portanto, imperiosa se faz a análise dos erros e acertos cometidos pelos integrantes do corpo social.

Ocorre, na atualidade, a transformação absoluta dos valores e princípios. A própria estrutura familiar – núcleo elementar da comunidade –deixa, aos poucos, de ser valorizada como forma inicial de amadurecimento das relações interpessoais.

O isolamento prolifera. As pessoas tornam-se supostamente auto-suficientes. Fecham-se no corpo fraco e passageiro que lhes fora concedido. Buscam a resolução dos problemas na solidão intelectual vociferadora dos próprios pensamentos. Esquecem-se da necessidade inevitável de contato, de troca saudável com os demais seres humanos.

De outro lado, quando criticamos os maus políticos – seja em qualquer esfera dos poderes da República – esquecemos de onde saem estes destruidores da pátria: da própria sociedade. Então, o problema – voltamos ao debate – reside no seio da comunidade.

Se os corruptos fossem oriundos de Marte, Júpiter ou qualquer outra forma de existência extra-planetária, nada poderíamos fazer, cabendo-nos apenas a lamentação.

Como combater a corrupção no nascedouro? A saída pronta e acabada, a meu ver, não existe. É preciso que cada brasileiro pense, reflita e analise se, de qualquer forma, contribui para a mantença ou sustentação do sentimento de levar vantagem. É triste pensar na divulgação social da lei de gerson.

Ora, a capacidade humana de vencer por seus próprios méritos, de combater o bom combate, de lutar com vontade realizadora, de aceitar a maravilhosa rebeldia transformadora da juventude idealista, de cumprir sua missão terrena, não pode ser esquecida, relegada a plano inferior, sob pena de frustração e descompromisso social. É nisto que deve se concentrar o homo sapiens, sem deixar de levantar-se, certamente, contra as investidas da corrupção na sociedade.

E, a indagação final: a imprensa tem cumprido seu dever social? Qual o papel dos meios de comunicação no combate à corrupção? Devem os órgãos da mídia entender que a função jornalística é, precipuamente, de informação, de conscientização. Não pode a imprensa arvorar-se em dona da verdade - como há casos excepcionais se apresentando - buscando o subjetivismo de suas posições isoladas como forma de transfiguração da verdade. Igualmente, não deve assentar-se do lado do interesse econômico, em detrimento da ordem social.

O compromisso da imprensa real é com a informação imparcial. Portanto, homens e mulheres da palavra, não se deixem levar pelo impulso passageiro, orgulhoso, covarde e vaidoso da audiência.

Cabe a vós, principais formadores de opinião, informar criteriosamente o público, evitando a massificação da informação. E aos leitores e ouvintes, impõe-se o papel fundamental de filtração da notícia, evitando situar-se como massa receptora padrão esgoto, sem posição ou pensamento próprio, por preguiça ou leviandade.

Não cabe a imprensa o papel de julgar. No Estado Democrático de Direito, a função monopolista da jurisdição reside no Poder Judiciário. Este sim, tem a missão constitucional de apreciar, imparcialmente, as causas submetidas à sua tutela.

Embora o Judiciário - como os demais poderes da República – necessite aperfeiçoar-se, tornando-se ágil e célere, não se pode - pelas deficiências e vicissitudes deste - subestimá-lo na missão de julgar.

Critiquem o Judiciário, para que este possa desenvolver-se, mas não tentem substituí-lo: o risco é da própria democracia e, via de consequência, do interesse social.

É preciso, ainda, combater o denuncismo vazio, desprovido de fundamentos plausíveis. Não se pode cair na mesmice e no descrédito generalizado. O homem deve acreditar no homem, sob pena de duvidar de si mesmo.

Quando se critica um determinado legislador, administrador ou julgador, deve a opinião pública analisá-lo sem procurar depreciar toda a classe de pessoas componentes daquele órgão ou Poder.

Quando se descobre um médico inescrupuloso, não se pode desacreditar na Medicina. Quando se reconhece um legislador corrupto, não se pode desacreditar no Legislativo. Quando se vê um juiz parcial, não se pode desacreditar na instituição que é o Poder Judiciário. É necessário, segundo a expressão popular, separar o joio do trigo.

A crença nas instituições é fundamental ao desenvolvimento e aperfeiçoamento da verdadeira democracia. Os homens passam, mudam, todavia as instituições permanecem, fortes e solidificadas se contarem com o apoio popular.

Portanto, o levante deve ser contra aquele, isolada ou conjuntamente, indigno de pertencer a qualquer classe, permanecendo em nós - como forma de garantia de nossos próprios direitos individuais e sociais – o sentido de credibilidade das instituições democraticamente concebidas pelo Estado de Direito.

Expulsem o homem, mas não arrebentem as instituições. A fragilização institucional é forma de suplantar o regime democrático, buscando o retorno do Estado autoritário, após o sacrifício do povo brasileiro para alcançar o processo de redemocratização.

Pregar o retorno da ditadura, em momento de debilidade da democracia, demonstra-se tão aviltante e indigno como preconizar a própria corrupção. Não pense o leitor que durante o regime autoritário a corrupção não entranhava o Poder. A diferença é que a pestilência não vinha à tona – ao conhecimento popular - contudo corroia internamente alguns órgãos públicos como o câncer, destruindo o sonho social de grandeza coletiva nas chagas putrefatas.

A democracia é o governo do povo; urge que o próprio povo, entendendo a importância crucial na alteração da ordem institucional, apresente propostas conscientes de mudanças, como forma de engrandecimento desta maravilha que é a participação popular nos rumos da Nação.

Lutemos, assim, pela modificação do sentimento nacional, com a coragem cívica de enxergar os próprios erros, cortando na própria carne, demonstrando o amor do homem ao interesse social maior: a valorização da Pátria

 



     

Voltar